sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

“Caso” Battisti: eis por que estamos com Lula

1) a carta abaixo é de 4 professores universitários italianos
radicados na França

2) o link é da associação AltraItalia, dos migrantes italianos em
Barcelona (Espanha), eles se definem como exilados diante da tristeza
da situação italiana: Berlusconi (sic), fascistas no poder, xenófobos
querendo separa o país, membros do ex-PC (PD) que defendem a anulação
do direito de greve!

http://www.altraitaliabcn.org/

enviado por Carlos Moreira 3 setor


“Caso” Battisti: eis por que estamos com Lula

Somos um certo número de italianos residentes no exterior, onde
trabalhamos no ensino e na pesquisa, estupefatos com a postura da
mídia e da “opinião pública” do nosso país diante do “caso” Cesare
Battisti. A jornalista Anais Ginori, em La Reppublica de 2 de janeiro,
parece por exemplo estigmatizar o “júbilo dos intelectuais franceses”
(arbitrariamente identificados com Bernard-Henri Lévy e Fred Vargas)
diante da recusa de extraditar Battisti, decidida pela presidente
brasileiro Lula da Silva.

Quanto à força de oposição ao atual governo
Berlusconi, estamos particularmente surpresos ao apreender como alguns
parlamentares do PD se recordam repentinamente de sua matriz
ideológica, apelando inesperadamente ao presidente Lula enquanto
“homem de esquerda”, com o único propósito de questionar seu gesto de
precaução em relação aos direitos de um preso.

Contrariamente ao que se tem escrito e dito, nós acreditamos que a
decisão de competência do presidente brasileiro não é resultado de um
juízo superficial e apressado sobre nosso país, mas resultado de uma
avaliação aprofundada e pertinente da situação política e judiciária
italiana. O Brasil é o último de uma longa lista de países, após
Grécia, Suíça, França, Grã Bretanha, Canadá, Argentina, Nicarágua, que
se recusaram a colaborar com a justiça italiana. Será um acaso? Na
verdade, a fúria do governo italiano em pedir a extradição de Battisti
se configura hoje mais como a vontade de exorcizar um inimigo vencido
(quase uma obsessão de eliminar), do que como uma sóbria, autêntica
exigência de justiça. Surpreendente, em particular, uma tal
perseverança “justiceira” da parte de um executivo tragicamente
incapaz de lançar luz sobre a carnificina dos anos sessenta e setenta,
unanimimente considerada pelos historiadores como a “mãe” de todo o
terrorismo.

Recordemos como em seu favor o “zero responsáveis” sobre o
atentado da Praça Fontana em Milão e da Praça de Loggia em Brescia tem
sido permanentemente consagrado, respectivamente pela Suprema Corte em
3 de maio de 2005 e, mais recentemente, pela Corte de Inquérito em 16
de novembro de 2010. Ou uma magistratura severa que garante a
imparcialidade do Estado, como sugerido recentemente por Alberto Asor
Rosa[1] em uma de suas freqüentes colunas no Manifesto!

Uma tal diferença de tratamento em investigar a responsabilidade, que não tem
como não saltar aos olhos da opinião pública internacional, não é
apenas o efeito de uma permanência endêmica, na Itália, de uma classe
corrupta no governo ou mesmo para-fascista (de Alemanno, ex-membro de
esquadra fascista, prefeito de Roma, ao insolente ex-MSI [2] La Russa,
Ministro da Defesa). Não, essa tara originária é antes de tudo fruto
da política de emergência que tem sido o leitmotiv da política
italiana do pós-guerra e na qual a esquerda se deixa seduzir, até a
morte rápida como uma fatalidade, quando não tranqüilamente acomodada,
por uma consolidada incapacidade de propor uma alternativa global a
uma ordem capitalista tardia.

Essa “emergência” prolongada foi a base da participação de setores
inteiros do Estado nas atrocidades criminais que ensangüentaram o
passado recente da história nacional, impedindo a emancipação social e
debilitando antropologicamente, molecularmente, a cotidianidade. Fato
altamente significativo, a classe política atualmente no comando na
Itália é herdeira direta desses poderes um dia ocultos (“Piano solo”,
“Gládio”, “P2” [3]), mas agora definitivamente desembaraçada e bem
decidida a ocupar o terreno político e midiático, para defender seu
próprio interesse vital ameaçado: aquele de uma vida reduzida a uma
pura, absurda axiomática empresarial.

A “anomalia italiana” não é senão o resultado dessa sistemática subordinação dos órgãos
garantidores do direito à “exceção” do comando político e ao seu
diktat selvagem sobre a consciência. Basta pensar que um dos mais
altos postos da república, abaixo apenas do Presidente Giorgio
Napolitano, é hoje confiado a um “magnata” da mídia cuja “acumulação
primitiva”,
no curso dos anos sessenta e setenta, tem sido
caracterizada por aqueles que a definiram eufemisticamente como
“ilegalmente comprovada”.

Portanto, acreditamos que o forte envolvimento do Estado italiano na
guerra civil “guerreada” que teve lugar na Itália nos anos setenta,
paralelamente ao conflito (não somente e nem sempre “frio”) encenado
pelos dois blocos internacionais opostos e parcialmente especulares,
torna impossível desatar o nó histórico emerso com o “caso” Battisti
no quadro das instituições e das leis atualmente vigentes na Itália.

Somente uma medida que reconheça a enorme responsabilidade do Estado
na degeneração do embate político entre os anos sessenta e oitenta, e
não a grotesca exibição de orgulho nacional a que estamos assistindo
nesses dias, pode permitir à Itália sair do “déficit” de credibilidade
internacional que danifica fatalmente sua imagem. Enquanto tal medida
não se concretizar, justiça não poderá ser feita e o pedido de
extradição de ex-terroristas aparecerá fatalmente como atalhos
vexatórios, quando não como tentativas mentirosas de reescrever a
história.

Saverio ANSALDI – Università di Montpellier III

Carlo ARCURI – Università di Amiens

Giorgio PASSERONE – Università di Lille III

Luca SALZA – Università di Lille III.

Notas

[1] Alberto Asor Rosa é um intelectual conhecido na esquerda italiana
desde os anos sessenta. No final dos anos setenta, como quadro do
Partido Comunista Italiano, defendia posições teóricas que buscavam se
contrapor ao protagonismo nas lutas sociais dos sujeitos do qual
Cesare Battisti fazia parte. Vide sua teoria da “primeira” e “segunda
sociedade”. (N. do T.)

[2] Partido formado no pós-guerra por aderentes do fascismo. Foi na
prática o partido fascista italiano até sua dissolução na Aliança
Nacional em 1995. (N. do T.).

[3] Gladio era o nome de uma operação clandestina da OTAN no
pós-guerra, com objetivos anti-comunistas. Entre suas ações estavam
atentados com chamada “bandeira trocada”. P2 era uma loja maçônica,
envolvida com a Operação Gladio, com a máfia e em escândalos
financeiros. O ‘Piano solo’ foi um plano no qual a Gladio esteve
envolvida e que conseguiu tirar do governo italiano os ministros
socialistas, em 1964. (N. do T.).


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