quinta-feira, 10 de março de 2011

O vídeo que ajudou a desencadear o levante no Egito



No dia 18 de janeiro deste ano, uma jovem egípcia de 26 anos, Asmaa Mahfouz, publicou um vídeo no Facebook convocando as pessoas a protestarem contra o “governo corrupto” de Hosni Mubarak e a se manifestarem no dia 25 de janeiro na Praça Tahrir. Sua convocatória emotiva serviu de inspiração para o levante no Egito. “Eu, uma jovem, irei a Praça Tahrir, e estarei lá sozinha. E levantarei um cartaz, talvez a gente demonstre alguma honra”, dizia Mahfouz. Amy Goodman, do Democracy Now, conta essa história.

Amy Goodman - Democracy Now via CartaMaior

No dia 18 de janeiro a ativista egípcia Asmaa Mahfouz publicou um vídeo na internet convocando as pessoas a protestarem contra o “governo corrupto” de Hosni Mubarak e a se manifestarem no dia 25 de janeiro na Praça Tahrir. Sua emotiva convocatória serviu em última instância de inspiração para o levante no Egito. “Eu, uma jovem, irei a Praça Tahrir, e estarei lá sozinha. E levantarei um cartaz, talvez a gente demonstre alguma honra”, dizia Mahfouz. “Não acreditem que estarão seguros. Nenhum de nós está. Venham com nós e exijam seus direitos, meus direitos, os de suas famílias. Estarei ali no dia 25 de janeiro para dizer: “Não à corrupção. Não a esse regime”.

Amy Goodman: Agora, enquanto seguimos falando das faíscas que produzem uma revolução, quero mostrar a gravação de um vídeo postado no Facebook no dia 18 de janeiro e que se difundiu com rapidez por todo o Egito. O vídeo foi gravado por uma jovem egípcia chamada Asmaa Mahfouz. No vídeo, a ativista de 26 anos, cobrindo-se com um véu, fez um chamamento a seus concidadãos para unirem-se a ela, no dia 25 de janeiro, em sinal de protesto na Praça Tahrir para exigir seus direitos. Asmaa Mahfuz é uma das fundadoras do Movimento da Juventude 6 de abril. O grupo foi reconhecido por desempenhar um papel destacado na organização dos protestos de 25 de janeiro. Esta foi a convocação de Asmaa:

Asmaa Mahfouz: Quatro egípcios atearam fogo em si mesmos para protestar contra a humilhação, a fome, a pobreza e a degradação na qual tem vivido durante 30 anos. Quatro egípcios atearam fogo em si mesmos pensando que talvez possamos fazer uma revolução como a da Tunísia. No melhor dos casos, podemos voltar a ter liberdade, justiça, honra e dignidade humana. Hoje um deles morreu e escutei algumas pessoas comentando: “Que Deus o perdoe. Pecou e se suicidou por nada”.

Tenham alguma vergonha!

Publiquei que eu, uma jovem, irei à Praça Tahrir e vou protestar sozinha. E vou sustentar um cartaz. Talvez a gente mostre alguma honra. Inclusive escrevi meu número, assim talvez mais pessoas possam se unir a mim. Ninguém veio, com exceção de três meninos – três jovens e três veículos blindados da polícia anti-distúrbios e dezenas de capangas e oficiais que vieram para nos aterrorizar. Nos afastaram das pessoas aos empurrões. Mas enquanto ficamos sozinhos com eles, começaram a falar conosco e nos disseram: “Basta! Os meninos que se atearam fogo eram psicopatas”. Como sempre, em todos os meios de comunicação nacionais, aquele que morre em um protesto é um psicopata. Se eram psicopatas, por que se atearam fogo no edifício do Parlamento?

Fiz esse vídeo para enviar-lhes uma simples mensagem. Queremos ir à Praça Tahrir no dia 25 de janeiro. Se ainda temos honra e queremos viver com dignidade nesta terra, temos que ir lá no dia 25 de janeiro. Iremos exigir nossos direitos, nossos direitos humanos fundamentais.

Amy Goodman: Este era o conteúdo do vídeo publicado pela jovem ativista egípcia, no dia 18 de janeiro, uma semana antes do início do levante no Egito. Embora grande parte da juventude no Egito tenha se organizado pela internet, muitos deles fizeram isso mediante comentários anônimos. Nos vídeos publicados, Asmaa Mahfouz fala diretamente à câmera e se identifica. A audácia deste ano, a energia com que fala, como mulher, inspirou a muitos outros jovens a publicar suas imagens também na rede. Na véspera do protesto, Asmaa publicou mais um vídeo onde resumia algumas de suas expectativas.

Asmaa Mahfouz: Agora são 10:30 da noite de 24 de janeiro de 2011. Amanhã é dia 25, o dia que estamos esperando, o dia pelo qual temos trabalhado arduamente. O mais bonito disso tudo é que quem tornou esse dia possível não foram os políticos. Fomos nós, todos os egípcios. Trabalhamos duro. Jovens de menos de 14 anos imprimiram o cartaz e o distribuíram depois das orações. As pessoas maiores, com mais de sessenta, setenta anos, também ajudaram. As pessoas o distribuíram em todos os locais que puderam – nos táxis, no metrô, na rua, nas escolas, universidades, empresas, agências governamentais...Todo o Egito está à espera do que vai acontecer amanhã.

Sei que todos estamos nervosos e ansiosos nestes momentos, mas todos queremos que a concentração de amanhã ocorra e tenha êxito. Gostaria de dizer a todos que amanhã não é a revolução nem é o dia em que vamos mudar tudo. Não, amanhã é o início do fim. Amanhã, temos que defender juntos nossa causa em um protesto pacífico, apesar das represálias por parte das forças da ordem. Será o primeiro passo real na direção da mudança, o primeiro passo real que nos levará para frente e que nos ensinará muito. Nossa solidariedade na planificação foi um êxito em si mesmo. O simples fato de reconhecer que devemos exigir nossos direitos é um êxito.

Amy Goodman: Asmaa Mahfouz. No dia seguinte à gravação, centenas de milhares de egípcios acudiram à Praça Tahrir, no cairo, a Praça da Libertação, para exigir a destituição do presidente Mubarak e o fim de seu regime. A participação não teve precedentes, inclusive entre os organizadores, incluindo o Movimento 6 de Abril. No dia seguinte, Asmaa Mahfouz publicou outro vídeo com sua resposta, afirmando que as manifestações tinham sido “o dia mais feliz de sua vida”, ressaltando que ainda havia muito trabalho por fazer.

Asmaa Mahfouz: As pessoas querem derrubar o regime. Essa era nossa consigna ontem, 25 de janeiro de 2011. Houve milhares e milhares de pessoas. Não consegui contar quantos éramos. Havia manifestações por todos os lados. A polícia anti-distúrbios não pode controlar tamanha quantidade de gente. O que aprendemos ontem é que o poder pertence ao povo, não aos capangas. O poder está na unidade, não na divisão. Ontem, vivemos o maior momento de nossas vidas. Nos demos conta de que o povo egípcio não é caótico ou desordenado. O governo segue dizendo que somos um povo caótico e que uma revolução levaria ao caos.

Ontem nos mantivemos unidos como um punho, preocupados com os demais. Ontem, nem uma só jovem, entre mulheres, foi molestada. Ninguém roubou nada. Ninguém feriu ninguém. Não houve brigas. Estávamos defendendo uns aos outros. Todo mundo estava preocupado com os demais. Alguns compraram garrafas de água e as distribuíram. Outros distribuíram sanduíches. Todo mundo agiu com o coração. Viva o Egito! Houve alguns meninos e meninas que inclusive limparam as ruas, retirando o lixo e os escombros. Este é o povo egípcio com o qual sempre sonhamos. Agora posso dizer que me sinto orgulhosa de ser egípcia. Desejo realmente beijar a face de todos os egípcios e dizer: “Obrigado por ser egípcio”. Nunca imaginei que veria isso.

Mas temos que continuar. A polícia anti-distúrbios nos perseguiu até às cinco horas da manhã para golpear-nos e prender-nos. Ontem, vimos o medo refletido em suas faces. Utilizaram munição de guerra, balas de borracha, gases lacrimogêneos e canhões de água para nos dispersas. Mas nos mantivemos unidos e seguiremos unidos.

Amy Goodman: Esta foi Asmaa Mahfouz, a ativista egípcia de 26 anos de idade que faz parte do Movimento da Juventude 6 de abril. Gostaria de mostrar agora um pouco mais das palavras desta valente jovem egípcia, uma semana antes do levante de 25 de janeiro.

Asmaa Mahfouz: Nem sequer vou falar sobre direitos políticos. Só queremos nossos direitos humanos e nada mais. Este governo é corrupto, com um presidente corrupto e forças de segurança corruptas. Estas pessoas que se imolaram não tinham medo da morte, mas tinha medo das forças de segurança. Imaginam isso? Vocês vão se suicidar também ou não entendem o que está ocorrendo? Eu vou á praça dia 25 de janeiro e de hoje até este dia vou distribuir folhetos nas ruas. Eu não vou colocar fogo em mim mesma. Se as forças de segurança querem me ver em chamas que o façam.

Se você se considera um homem de verdade, una-se a mim no dia 25 de janeiro. Aqueles que dizem que as mulheres não devem ir aos protestos porque podem ser golpeadas, que mostrem alguma honra e valentia e venham comigo no dia 25 de janeiro. Para aquele que diz que não vale a pena porque só haverá um punhado de pessoas, eu gostaria de dizer: “Você é a razão de tudo isso e é um traidor, igual ao presidente ou a qualquer policial que nos pega nas ruas”. Tua presença entre nós marcará uma diferença, uma grande diferença. Fale com seus vizinhos, colegas, amigos e familiares e diga a eles para que venham também. Eles não que ir para a Praça Tahrir. Só tem que sair para a rua e dizer que somos seres humanos livres. Ficar sentados em caso e seguindo os acontecimentos unicamente pelo noticiário ou pelo Facebook só nos levará à humilhação.

Se você tem honra e a dignidade de um homem, venha conosco. Vem ajudar a me proteger e a outras jovens durante o protesto. Se fica em casa, então merece tudo o que está sendo feito e será culpado diante de tua nação e de teu povo. Será responsável pelo que nos ocorra nas ruas enquanto fica sentado em casa.

Saiam às ruas. Enviem mensagens pelo celular. Publiquem comentários na rede. Façam com que as pessoas saibam o que está ocorrendo. Você conhece seu próprio círculo social, seu edifício, família, amigos. Convida-os a vir conosco. Traz cinco ou dez pessoas. Se cada um de nós conseguir trazer cinco ou dez pessoas à Praça Tahrir e dissermos “Já basta. Em lugar de nos atearmos fogo, vamos fazer algo positivo” – isso fará diferença, uma grande diferença.

Nunca diga que não há esperança. A esperança só desaparece quando diz que já não existe nenhuma. Se você se unir a nós, haverá esperança. Não tenha medo do governo, ou de nenhuma outra pessoa, só deve ter medo de Deus. Deus diz que não mudará a condição de um povo enquanto este não a mude em si mesmo. Não acredite que possa ficar a salvo. Nenhum de nós está. Una-se a nós e exige teus direitos, meus direitos, os direitos de tua família. Eu irei à praça no dia 25 de janeiro e direi não à corrupção, não a este regime.

Tradução: Katarina Peixoto

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