sexta-feira, 29 de abril de 2011

Chernobyl: catástrofe no passado, presente e futuro

Um quarto de século se passou, mas a tragédia de Chernobyl está longe de pertencer ao passado. Mesmo após a construção do sarcófago, não foi possível reocupar todas as áreas que foram contaminadas. Cinco milhões de hectares de terras foram inutilizados, e houve contaminação significativa de florestas. Outra incógnita refere-se às consequências da radiação para a vida animal. Os cientistas registraram queda da biodiversidade e várias mutações genéticas em pássaros, insetos e flores. No que diz respeito às pessoas, a situação ainda é alarmante.

Larissa Ramina no sitio CArtaMaior

Há aniversários que provocam dor e revolta. Vinte e cinco anos depois do acidente nuclear de Chernobyl, na Ucrânia, em 26 de abril de 1986, milhões de pessoas continuam sofrendo os devastadores efeitos radiológicos, psicológicos, sociais, ecológicos e econômicos da maior catástrofe da história nuclear civil. O desastre revelou ao mundo que o uso civil da energia nuclear era capaz de produzir os mesmos efeitos de uma bomba atômica!

Por uma infeliz coincidência, a data foi marcada pelo vazamento dos reatores da usina nuclear de Fukushima, resultante de um terremoto de grande magnitude que atingiu o Japão em março passado. A tragédia, somada aos acidentes de Tcheliabinsk na União Soviética em 1957, na Three Miles Island, nos Estados Unidos em 1979, e em Goiânia em 1987, fomentou o debate acerca da viabilidade da energia limpa como alternativa à energia derivada de recursos fósseis.

A explosão do reator de Chernobyl liberou uma nuvem radioativa gigantesca que contaminou tudo num raio de 200.000km2, chegando até a Europa e à África, e progressivamente irradiando efeitos por toda a atmosfera terrestre. Estima-se que milhares de pessoas foram contaminadas. Em seguida ao acidente, a União Soviética realocou cerca de 350.000 pessoas que viviam nas proximidades, e enviou quase 600 mil pessoas, entre bombeiros, civis e soldados, que foram apelidados de "liquidadores", à zona afetada para a construção de um sarcófago que isolasse o material radioativo concentrado no reator por 20 a 30 anos. Não há estudos confiáveis, mas estima-se que a maior parte daquelas pessoas tenha sofrido, esteja sofrendo ou sofrerá algum efeito em decorrência da exposição à radiação. Esses efeitos, por sua vez, serão transmitidos de geração para geração.

Um quarto de século se passou, mas a tragédia de Chernobyl está longe de pertencer ao passado. Mesmo após a construção do sarcófago, não foi possível reocupar todas as áreas que foram contaminadas. Cinco milhões de hectares de terras foram inutilizados, e houve contaminação significativa de florestas. Outra incógnita refere-se às consequências da radiação para a vida animal. Os cientistas registraram queda da biodiversidade e várias mutações genéticas em pássaros, insetos e flores. No que diz respeito às pessoas, a situação é alarmante. Além daquelas diretamente afetadas, as estimativas oficiais não se pronunciam a respeito dos milhões de seres humanos afetados indiretamente pela nuvem radioativa que cruzou continentes, levando à conclusão de que a catástrofe não tem qualquer relação com suas mortes e doenças.

O acidente provocou a liberação de quantidade 400 vezes maior de material radioativo do que aquela liberada pelas bombas despejadas sobre Hiroshima e Nagasaki, no final da Segunda Guerra Mundial. A precipitação radioativa de Chernobyl permanece como um perigo para o meio ambiente, mas quase não há pesquisas sobre o tema. As regiões mais afetadas pela poeira e cinza radioativas têm contaminação em até 20 centímetros abaixo do solo. Elas representam uma fonte pequena, mas constante, de exposição. As partículas radioativas passam do solo para as plantas por meio das raízes, e para os animais por meio da vegetação que os alimenta e, para os humanos, por meio da carne e do leite. Absorvida pelo corpo humano, a radiação danifica o DNA. Médicos e geneticistas alertam para os efeitos das doses fracas de radioatividade em dezenas de milhões de pessoas que vivem, bebem, se alimentam e se reproduzem em um meio contaminado: tumores cancerígenos, cardiopatias, fadigas crônicas e doenças inéditas. Para além de tudo isso, teme-se efeitos irreversíveis sobre o genoma humano.

Estima-se que muitas doenças hereditárias, provocadas por mutações genéticas, atingirão milhares de bebês no futuro. A conclusão trágica é de que o acidente nuclear de Chernobyl deverá ficar perpetuado por várias gerações no patrimônio genético da humanidade. Não se trata, portanto, de assunto do passado, mas também do presente e do futuro. Seja através da explosão de uma bomba nuclear ou de um acidente como o de Chernobyl, o fato é que todos nós estamos expostos direta ou indiretamente aos resquícios das atividades nucleares na atmosfera terrestre. Os efeitos de Chernobyl em longo prazo na saúde pública e no meio ambiente permanecem desconhecidos.

Além disso, décadas depois da catástrofe, as regiões afetadas permanecem social e economicamente devastadas. Para além das 350.000 pessoas evacuadas, 784.320 hectares de terras agrícolas foram proibidos para o cultivo e outros 700.000 hectares tiveram vetada a produção de madeira. Por outro lado, o sarcófago, pleno de fissuras, ameaça ceder e necessita da construção de um reforço que custará mais de um bilhão de dólares.

Atualmente existem 440 centrais nucleares no mundo, que significam 440 focos de riscos de desastres nucleares. O Brasil já passou por uma experiência traumática em Goiânia. Seria oportuno aproveitar o momento de discussão mundial, para retomar o debate acerca do futuro da energia nuclear no Brasil, envolvendo os mais diversos setores da sociedade, uma vez que o assunto ultrapassa a questão estratégico-energética, afetando de pleno a saúde pública e o meio-ambiente.

(*) Doutora em Direito Internacional pela USP, professora da UniBrasil e do UniCuritiba.

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