fulinaíma

quinta-feira, 14 de abril de 2011

O país em luto e no banco dos réus

Como conviver numa sociedade em que a disseminação do medo tornou-se um negócio lucrativo?
 
Editorial ed. 434 do Brasil de FAto

O assassinato de 12 crianças da Escola Municipal Tasso da Silveira, em Realengo, zona oeste do Rio, dia 7, chocou a todos. A monstruosidade cometida, friamente, contra vidas inocentes e indefesas, protagonizada por um jovem esquizofrênico, coloca nossa sociedade sentada no banco dos réus. O acontecimento explicita as incertezas do futuro que queremos legar às gerações posteriores. Mas, sobretudo, põe em xeque o presente. É contundente o questionamento do jornalista Mauro Santayana, ao indagar “se vale a pena continuar sepultando crianças, e, com elas, os sentimentos de solidariedade, de humanismo, de civilidade e de justiça”. Valores que a sociedade capitalista fragiliza todo dia.


A brutalidade do ato nos impõe questionamentos que vão além dos de responsabilizar o assassino, já morto. Até quando manteremos uma sociedade estruturada e promotora de uma das maiores desigualdades sociais do planeta? Como conviver numa sociedade em que a disseminação do medo tornou-se um negócio lucrativo? Espalha-se o medo e logo surge uma empresa vendendo proteção e segurança, seja na área da saúde, investimentos financeiros, propriedades materiais, educação, moradia e, até mesmo, do seu futuro. Será mera coincidência que a sociedade estadunidense, tida como modelo para a burguesia daqui, é justamente onde ocorre o maior número de lamentáveis acontecimentos como o ocorrido em Realengo? Os EUA - que se vangloriam de ser a polícia do mundo, que constroem imagem de ser uma sociedade soberba e bem armada, que possui uma população carcerária superior a da agricultura, que tem a maior indústria cinematográfica disseminadora da violência, que não hesita em prover guerras para dominar, se apropriar de riquezas naturais e incrementar sua economia, que sustenta seu luxo empobrecendo outros povos - pode servir de exemplos a outras sociedades?


Em busca de ganhos pessoais e de maior visibilidade, há políticos que não hesitam em promover ataques e espalhar preconceitos contra homossexuais e negros, como fez recentemente o deputado federal Jair Bolsonaro (PP/RJ) em programa de televisão. Sempre com um discurso agressivo, racista e sexista, esse parlamentar destila ódio em busca dos holofotes da mídia e de cativar uma parcela da sociedade que lhe garante sucessivos mandatos. Não diferente fez o candidato tucano José Serra, nas eleições passadas, quando espalhou mentiras, preconceitos e intolerância, em busca dos votos que pudessem alimentar seu esquizofrênico sonho de ser presidente do Brasil. Sempre com a conivência da mídia burguesa e com a impunidade assegurada por setores do Poder Judiciário. Não hesitou nem mesmo em usar sua mulher, Mônica Serra, para acusar irresponsavelmente a candidata Dilma Rousseff de ser a favor de matar criancinhas. Resta-nos a esperança de que as tradicionais olheiras desse tucano são consequentes de noites mal-dormidas pelo desserviço que prestou à política brasileira e pelo incentivo que deu aos grupos mais direitistas do país.


Ter a coragem de encarar de frente a tragédia de Realengo exige, da sociedade brasileira, determinação e firmeza para enfrentar o modelo de comunicação em nosso país. Acabar com o monopólio é apenas a ponta desse iceberg. Trata-se de definir o papel da comunicação numa sociedade que busca consolidar a democracia, ser socialmente justa, culturalmente instruída e desenvolvida. É deplorável a forma como a mídia cobriu a tragédia da Escola Municipal Tasso da Silveira. Em busca de elevar seus índices de audiência promoveram acusações infundadas e irresponsáveis, como o de tentar vincular o acontecimento ao fundamentalismo islâmico. Não pouparam nem mesmos os alunos sobreviventes da tragédia e seus familiares, com insistentes e desrespeitosas entrevistas. Em nenhum momento houve disposição de promover um debate sério e aprofundado sobre a questão. E muito menos mexer com os interesses das indústrias bélicas. Uma mídia coerente, hoje, com a postura que adotou em 2005 quando ficou do lado da bancada das armas, defendendo esse comércio no país.


Há sinais, no entanto, que mostram que o acontecimento explicitou outros valores e comportamentos contrários à cultura da violência, do medo, da mentira, do individualismo e de ganhar a quaisquer custos. Além da solidariedade prestada às vitimas da tragédia, nada mais valoroso do que o grupo de moradores que se reuniu para apagar as pichações feitas na parede da casa do assassino, contra ele e seus familiares. Buscaram dar um basta, com aquele gesto simbólico, às ideias de violência e preconceitos que, na maioria das vezes, fazem de vítimas a população mais pobre e desassistida de políticas públicas.


Também é louvável a iniciativa, no Senado Federal, de um projeto de decreto legislativo convocando um plebiscito para que o povo brasileiro decida se o comércio de armas e munição deve ser proibido no Brasil. Esperamos que a indústria da morte e da violência, juntamente com a bancada das armas, seja derrotada dessa vez.

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