fulinaíma

quinta-feira, 7 de abril de 2011

Sobre revolução

árabes trouxeram novamente à tona todas as experiências revolucionárias do século 20

Wladimir Pomar no Brasil de Fato

O momento é especialmente favorável para tratar desse conceito. Até algum tempo atrás, da mesma forma que marxismo, comunismo e socialismo, o termo revolução parecia banido para sempre. Era apresentado como algo ultrapassado, da era dos mastodontes jurássicos, tanto por publicistas da direita e do centro, quanto por muitos esquerdistas bem intencionados. Afinal, revolução realmente não é algo isento de pavores.

O contraponto é que os noticiários dos meses recentes se viram obrigados a criar um termo que condensasse tudo o que vinha acontecendo na Tunísia, Egito, Iêmen, Barhein, Jordânia, Líbia e outros países árabes. Países, diga-se de passagem, contra os quais o furor norte-americano na suposta defesa dos direitos humanos e democráticos não se voltou há muitas décadas. O termo revolução foi, assim, resgatado de sua tumba, com a grande imprensa ocidental se esforçando ao máximo para colocá-lo no brete estreito da democracia liberal.

Nesse sentido, a Líbia e a revolta contra Gadafi passaram a primeiro e único plano, como se todo o resto houvesse voltado à tranqüilidade, após o acordo de retirada dos bodes, ou dos ditadores, da sala palaciana de alguns daqueles países. Revoluções são assim mesmo. Às vezes, elas dão um tempo, para ver até onde as concessões dos de cima atendem às reivindicações e aspirações dos de baixo. E se tais concessões não atendem tais reivindicações e aspirações, elas podem voltar com energias duplicadas. Tudo isso pelo simples fato de que revoluções são realizadas pelo povo, principalmente pelo povo pobre, que já não suporta viver como até então e já se convenceu de que não tem mais nada a perder.

Da mesma forma que, faz tempo, o levante popular pegou de surpresa o imenso serviço secreto e repressivo do xá do Irã, e liquidou a monarquia persa, a revolução no mundo árabe do norte da África e do Oriente Médio apanhou de surpresa a CIA e todos os serviços secretos dos ditadores pró-americanos. Como em todas as revoluções anteriores, eles também foram incapazes de acompanhar e medir o pulso das múltiplas atividades e pequenas lutas dos de baixo, e descobrir o momento em que tais lutas ou micro-tremores se transformariam num vulcão popular.

É difícil dizer até onde cada um daqueles povos vai em seu processo revolucionário. Primeiro, porque a maioria luta brandindo fundamentalmente o que não quer. Isto é, luta contra a ditadura, contra as más condições de vida, contra o desemprego, contra um conjunto de negatividades que tornou sua vida, e a dos seus, insuportável.

Apenas alguns poucos sabem, inclusive dentro do regime em xeque, quais alternativas apresentar para dar solução parcial a tal situação, umas para esvaziar o processo revolucionário, como é o caso do comando militar egípcio, outras para fazer a revolução avançar. Porém, se nenhum delas construiu uma hegemonia, isto é, se tornou uma direção livremente consentida, a disputa se tornará ainda mais difícil. A revolução corre o risco de ser derrotada ou ser negociada, por meio de reformas menores, que não resolverão os principais problemas trazidos à tona pela luta popular.

É por não entender esses aspectos da luta social que muitos setores populares não dão atenção à construção de partidos fortes, que lutem permanentemente pela hegemonia, mesmo nos períodos de longa calmaria. E que, mesmo quando tais partidos existem, haja uma quantidade considerável de dirigentes e militantes que desprezam o trabalho de criar raízes fortes com as camadas populares, através de organizações de base (pouco interessa que nome tenham) capazes de acompanhar e participar do dia-a-dia de luta democrática daquelas camadas.

Sem isso, tais partidos se tornam incapazes de descobrir as tendências principais de luta das camadas populares e, da mesma forma que os mais eficientes serviços secretos dominantes, são apanhados de surpresa quando o povo se levanta em revolução. Na maioria dos povos árabes em revolta, a ausência de verdadeiros partidos revolucionários parece ser uma constante, embora isto às vezes não queira dizer muito. A experiência tem mostrado que partidos de tradição revolucionária podem se perder diante dos desafios revolucionários reais, enquanto outros podem transformar-se e se desenvolver no curso mesmo da revolução.

Assim, não é por acaso que os Estados Unidos e a maior parte das potências capitalistas européias estejam preocupados com os rumos das revoluções árabes. Ao se darem conta de que elas têm um forte conteúdo leigo, despertaram para o fato de que tais revoluções podem ganhar o caráter de nacionais e socialistas. Elas resgatariam, assim, não só o termo revolução, mas também o termo socialismo, constituindo uma pedra a mais na crise global que enfrentam. Isso, apesar de que revoluções socialistas, em países atrasados do ponto de vista do desenvolvimento capitalista, não podem descartar de imediato a propriedade privada e as relações capitalistas.

De qualquer modo, a novidade de uma revolução de caráter nacional e socialista consiste em que o capitalismo nacional, por um lado, contribui para o desenvolvimento das forças produtivas e, por outro, tem que se subordinar a um processo de mercado orientado, de constante redistribuição da renda, e de presença da sociedade e do Estado na economia, através de empresas de propriedade cooperativa, pública, estatal e mista. É essa estrutura múltipla que pode impedir a sociedade civil desses países de ser apenas um apêndice do capital, como acontece nos países onde o capitalismo tem a hegemonia e o domínio.

As revoluções dos países árabes trouxeram novamente à tona todas as experiências revolucionárias do século 20. Só o povo pobre e trabalhador, massivamente mobilizado, faz revoluções, independentemente de haver ou não partidos revolucionários em seu seio. E esse povo só se joga no movimento da revolução quando não pretende mais viver como até então. Está contra tudo que tem pela frente e não tem mais nada a perder.

De outro lado, os dominantes também não têm mais como continuar regendo como até então. Eles não só perderam a legitimidade para prometer concessões, como se vêem divididos no enfrentamento contra o povo. Uma parte da burguesia procura outras saídas e se une ao próprio povo, na esperança não só de ser poupada, como de conquistar a hegemonia. As classes médias também racham, com grande parte se juntando ao povão e alguns setores disputando a direção do movimento.

Depois de muitos anos, o povo pobre de grande parte do mundo árabe se colocou em movimento e está mudando ainda mais a geopolítica mundial, abrindo uma fenda ainda mais profunda no capitalismo dominante. Mesmo que suas revoluções não consigam consolidar o caráter socialista, este pode esperar porque, afinal, não é ele o limite do capitalismo, mas sim o próprio capitalismo.

Wladimir Pomar é analista político e escritor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário