fulinaíma

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

juras secretas




Jura secreta 15 sonhos de verão 

lendo em teu livro/corpo 
corpo/livro que me empresta 
este poema é o que resta 
das mil e umas noites de verão 
quando pensei em Teerã 
você sonhava comigo 
e eu coloquei no teu umbigo 
veneno doce da maçã 

e o vermelho sangue da pitanga 
foi o que ficou na minha tanga 
quando beijou meu sexo de manhã 

e eu solto velas ao vento 
na travessia espaço e tempo 
sendo real ou tanto faz 
com a linguagem que invento 
para aportar teu porto e cais 





eu te desejo flores lírios brancos 
margaridas girassóis rosas vermelhas 
e tudo quanto pétala 
asas estrelas borboletas 
alecrim bem-me-quer e alfazema 

eu te desejo emblema 
deste poema desvairado 
com teu cheiro teu perfume 
teu sabor teu suor tua doçura 

e na mais santa loucura 
declarar-te amor até os ossos 

eu te desejo e posso : 
palavrArte até a morte 
enquanto a vida nos procura 





Jura secreta 13
 

o tecido do amor já esgarçamos 
em quantos outubros nos gozamos 
agora que palavro itaocaras 
e persigo outras ilhas 
na carne crua do teu corpo 
amanheço alfabeto grafitemas 

quantas marés endoidecemos 
e aramaico permaneço doido e lírico 
em tudo mais que me negasse 
flor de lótus flor de cactos flor de lírios 
ou mesmo sexo sendo flor ou faca fosse 
Hilda Hilst quando então se me amasse 

ardendo em nós salgado mar e Olga risse 
olhando em nós flechas de fogo se existisse 
por onde quer que eu te cantasse ou amavisse 


Jura secreta 12 

taubaté 
tremembé 
tamanduateí 
tabatinga 
taguatinga 
tracunhenhem 
tucuruví 

toda palavra nua me tesa 
como o t da tua tigresa 
Matisse que nunca vi 




Jura secreta 11 engenho 484 para jiddu saldanha 

arrancar do gesto 
a palavra chave 
da palavra a imagem xis 
tudo por um risco 
tudo por um triz 

o trem bala (cospe esqueletos 
no depósito da Central) 
fuzil pode ser nosso brinquedo: 
novo enredo para o próximo carnaval 



fosse o que eu quisesse 
apenas um beijo roubado em tua boca 
dentro do poema nada cabe 
nem o que sei nem o que não se sabe 

e o que não soubesse 
do que foi escrito 
está cravado em nós 
como cicatriz no corte 
entre uma palavra e outra 
do que não dissesse 





Jura serceta 9 

não fosse o teu amor 
o meu conforto 
e eu teu anjo torto 
como seria 
se a jura secreta 
não fosse mais que um poema 
e se eu não te amasse 
como Glauber no cinema 
o que tenho aqui 
no corpo em transe: a quem daria? 





Jura secreta 8 

hoje vi na rua a palavra ibirapitanga 
que eu não conhecia 
e mesmo não a conhecendo 
já sabia que existia 
assim como: 

ibirapitinga 
ibiratininga 
annhangabaú 
anhanguera 
araraquara 
jabaquara 
ibirapuera 




Jura secreta 7 

fosse Sampa uma cidade 
ou se não fosse não importa 
essa cidade me transporta 
me transborda me alucina 
me invade inter fere na retina 
com sua cruel beleza 

como Oswald de Andrade 
e sua realidade 
como Mário de Andrade 
e sua delicadeza 




o que passou não ficará já foi 
a menina dos meus olhos 
roubou a tua menina 
e levou para festa do boi 

fosse um Salgado Maranhão 
nosso batismo de fogo 
25 de março 
e o morro queimando em chamas 
no canto pro tempo nascer 

e o amor que a gente faria 
o sol acabou de fazer 




Jura secreta 5 

não fosse essa alga 
queimando em tua coxa 
ou se fosse e já soubesse 
mar o nome do teu macho 
o amor em ti consumiria 

Olga Savary 
no sumidouro dos meus dias 

o couro cru 
na antropofágica erótica 
carne viva 
tua paixão em mim 
voraz língua nativa 




a menina dos meus olhos 
com os nervos à flor da pele 
brinca de bem-me-quer 
ela inda pensa que é menina 
mas já é quase uma mulher 




Jura secreta 3 

fosse essa jura sagrada 
como uma boda de sangue 
às 5 horas da tarde 
a cara triste da morte 
faca de dois gumes 
naquela nova granada 
e Federico Garcia Lorca 
naquela noite de Espanha 
não escrevesse mais nada 




não fosse esse punhal de prata 
mesmo se fosse e eu não quisesse 
o sangue sob o teu vestido 
o sal no fluxo sagrado 
sem qualquer segredo 

esse rio das ostras 
entre tuas pernas 
o beijo no instante trágico 
a língua sem que ninguém soubesse 
no silêncio como susto mágico 
e esse relógio sádico 
como um Marquês de Sade 
quando é primavera 




Jura secreta 1 

a língua escava entre os dentes 
                      a palavra nova 
fulinaimânica/sagarínica 
algumas vezes muito prosa 
outras vezes muito cínica 

tudo o que quero conhecer: 
           a pele do teu nome 
a segunda pele o sobrenome 
no que posso no que quero 

a pele em flor a flor da pele 
a palavra dândi em corpo nua 
a língua em fogo a língua crua 
a língua nova a língua lua 

fulinaímica/sagaranagem 
palavra texto palavra imagem 
   quando no céu da tua boca 
a língua viva se transmuta na viagem 




não fosse essa jura secreta 
mesmo se fosse e eu não falasse 
com esse punhal de prata 
o sal sob o teu vestido 
o sangue no fluxo sagrado 
sem nenhum segredo 

esse relógio apontado pra lua 
não fosse essa jura secreta 
mesmo se fosse eu não dissesse 
essa ostra no mar das tuas pernas 
como um conto do Marquês de Sade 
no silêncio logo depois do susto 


Artur Gomes

Nenhum comentário:

Postar um comentário